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sábado, 26 de abril de 2003 Zwan - Mary Star of the Sea Poucas vezes esperei tanto tempo um disco como o da nova banda de Billy Corgan (ex-líder dos Smashing Pumpkins, para os que passaram os anos 90 em Marte), Zwan. Mary Star of the Sea demorou uma eternidade para ser lançado depois do anúncio, no final de 2000, que Corgan tinha um novo projeto. A expectativa geral era grande, mas acredito que ninguém estava preparado para o que vinha pela frente. Antes de falar do disco propriamente dito, gostaria de esclarecer que acho Billy Corgan um sujeito de uma coerência incrível no decorrer de sua carreira. Sincero na sua arte, podemos ver claramente, se acompanharmos cronologicamente suas composições, o processo de amadurecimento do artista e da pessoa por trás da persona pública assumida, e propositalmente caricata, de rock star. Desde de a angústia pós-adolescente dos primeiros discos dos Smashing Pumpkins Gish e Siamese Dream, passando pela tristeza mais adulta e o conflito entre o niilismo e o sublime do épico Melon Collie and the Infinite Sadness, e chegando à confusão existencial/teológica de Machina - The Machines of God, onde Corgan se apresenta como um homem às voltas com uma espiritualidade fragmentada e indecisa, um disco onde no meio de tanta desordem espiritual e tristeza podemos encontrar faixas como With Every Light, onde o que é cantado é a alegria de se estar vivo, onde a felicidade decorre simplesmente de o sol estar banhando seu corpo. Corgan não estava mais cantando para o adolescente angustiado dentro dele, ou para os adolescentes angustiados do mundo, segundo declaração dele próprio. O que nos leva ao Zwan. Uma outra declaração atual do compositor é que você pode fingir tristeza bem facilmente, mas não dá para fingir felicidade. Essa declaração diz tudo sobre o disco Mary Star of the Sea: este é um disco alegre, solar. Talvez um dos motivos dessa alegria seja o fato de que Corgan está finalmente em dia com sua religiosidade. A primeira faixa, Lyric, começa com o seguinte verso: "Here comes my faith to carry me on" ("Lá vem a minha fé para me levar adiante). Mais adiante, em Ride a Black Swan, Corgan proclama: "I want us to solve our distrust of everyone / and trust in God" (Eu quero que nós resolvamos a desconfiança que temos de todos / e confiemos em Deus). E, de forma mais explícita, ainda temos Jesus I (que emenda com a faixa-título Mary Star of the Sea), uma espécie de hino gospel hard rock, com acordes mântricos e bateria (a cargo do espetacuar Jimmy Chamberlain, ex-Pumpkin) grandiloqüente. Estranho e, de certa forma, anti-comercial, mas funciona. Ou melhor, funciona sim, mas não tão bem quanto um disco dos Pumpkins. O fato é que apesar de todo o interesse que este "novo" Billy Corgan possa causar, as músicas, com exceção da épica Jesus I / Mary Star of the Sea, estão aquém das capacidades do compositor. Em sua maioria, são canções pop redondinhas e esquecíveis, sem a pegada pumpkiana a que estamos acostumados. Pelo final do disco, você já está cansado de músicas como "Desire" e "Come With Me", monótonas e parecidas entre si. Parece que na hora de sair do forno, a massa desandou e ficou faltando aquele ingrediente básico de qualquer música pop: a empatia. Elas não te arrebatam e ficam na cabeça, não estão lá os refrões potentes ou os riffs de guitarra poderosos que Corgan costumava criar aos montes, nos seus momentos mais inspirados. Merecem destaque, porém, a belíssima balada Of a Broken Heart; o rock desavergonhado, e de título sugetivo, Baby Let's Rock; e o single Honestly, um pop básico mas eficiente, com uma letra inspirada. Mas para um disco de 14 faixas é pouco. Ou melhor, para Billy Corgan é pouco. posted by Anônimo | 3:42 PM quarta-feira, 8 de janeiro de 2003 Segue um texto que eu fiz como uma redação no curso de inglês. Pra um texto feito em 50 minutos até que não ficou ruim. Alguém advinha em que filme eu me inspirei? SAY GOOD-BYE ON A NIGHT LIKE THIS... Lydia looked out of the car window and thought to herself, ´Is it never going to stop raining?´ She was alone and her boyfriend had gone to buy a couple of beers to them. And it had been an hour he went. It had been an hour it was raining, too. She felt desperate and decided to leave the car and look for him. She didn´t know where the bar was. But she couldn´t be inside that car anymore. The rain was hard and the streets were dark. She felt very scared when she saw five men coming to her direction. But they passed through her without disturbing.She saw a bar. It probably was the bar where her boyfriend had gone to. She entered the place and saw some people drinking. Some of them were already drunk. She asked the barman about him. He said that a man had been there forty minutes ago and had bought two beers. She decided to go back to the car. `He is probably there waiting for me`, she thought. A bat passed next to her making a strange noise. When she got in the car, she saw him waving to her. `What a relief`, she said. She held him very strongly and kissed him on the mouth. Then, she realised his body was very cold, his skin was too white an his teeth were too big. She screamed terrified. And her tongue was BLEEDING!!!! posted by Ailton Monteiro | 4:51 PM terça-feira, 10 de dezembro de 2002 Estrutural-DF: a indiferença mora ao lado – visita a Estrutural, aula extra de PAPE * Sexta-feira 06 de dezembro de 2002. Fomos seis alunos, de uma turma de aproximadamente 25, mais o professor. Passamos uma tarde no assentamento da Estrutural. Lá chegando registramos nossa visita na gerência e, auxiliados pela agente comunitária Helena, andamos pelas ruas de chão batido, às vezes com esgoto a céu aberto formando poças. Pudemos conversar com alguns moradores, indagar sobre seus anseios e necessidades e também visitamos suas casas. Confesso que nunca tinha estado em favela ou qualquer lugar parecido. Para mim, um morador do plano piloto de Brasília, o contato com outra realidade (a miserável) foi chocante. Sem dúvida, como o próprio Cariello afirmou, “essa visita vale por 10 aulas”. Foi um aprendizado especial para vida. O mais surpreendente é a força e a coragem dos moradores. Sobrevivem sem as mínimas condições num ambiente hostil (pelo menos para as classes média e alta). É gente boa que habita aquelas casas sem água encanada, sem esgoto, com gambiarra elétrica, insalubres. Há muitas crianças, muitas meninas esperando filhos, ou já com filhos. Os pequenos sofrem com doenças transmitidas por cachorros, numerosos por sinal e livres, porém magros, doentes e famintos. Já dizer que são pessoas trabalhadoras torna-se mais complicado, já que nem todas trabalham, muitas sobrevivem recebendo cestas-básicas azuis; triste e desesperador. Parece sem solução. Surge a questão da aula (segunda-feira 9 de dezembro à noite): remover ou manter o pessoal na Estrutural? Existem moradores com mais tempo de Estrutural do que todos meus anos vividos – que direito eu teria de achar, mesmo que hipoteticamente, que a solução seria remover os moradores, ou parte deles? Respondo: nenhum. Simplesmente são pessoas que desejam, sonham seu pedaço (doado) de terra. Ao indagar a um morador o que ele sentia mais falta na Estrutural, algumas respostas que seriam esperadas como água encanada e saneamento em geral não foram lembradas. O que faz falta é a escola perto pra deixar as crianças, é o hospital, ou seja, os equipamentos urbanos que qualquer cidadão quer. Na verdade não parece importar a falta de água encanada em casa (nunca tiveram antes), só o fato de estarem num lote que futuramente e, se o Santo Roriz quiser, será deles. Os moradores, enfim, serão donos. O que Proudhon diria, hein? E olha que os habitantes nem são proletários. O que esses pobres moradores são? São seres humanos. São um nada ignorados pela sociedade pseudo-intelectualizada e endinheirada. São os ELEITORES lembrados nas promessas de campanhas e esquecidos nas realizações políticas. São os cidadãos sem cidadania. O que eles querem? Vão até a Estrutural e perguntem a eles. Não mordem, garanto. Não há mais condições de chegar em casa deitar na cama e dizer “graças a Deus!”, ou mesmo se expressar: “não sou rico, mas tem muita gente pior ...” e tem mesmo, não nos conformemos, insuficientemente não. “Graças a Deus!” Só isso não basta. Brasília, 9 de dezembro de 2002. *PAPE = Projeto de arquitetura de problemas especiais. Tema: habitação popular. Professor: Orlando Cariello. Esta aula é dada na Universidade de Brasília, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. 2º semestre de 2002. posted by Anônimo | 12:20 AM quarta-feira, 27 de novembro de 2002 Escrevendo por escrever (26 nov. 02 primavera ainda) Há pouco dias conversei com o Foreman*, ele me disse que já haviam pessoas em férias escolares em Jales. Pensei: Caralho, quem mandou eu estudar em faculdade pública e de qualidade (?), só vou ter um recesso de duas semanas e um monte de trabalhos atrasados e novos pra serem feitos, calor, quente, praia (cadê você?), ah! GREVE! GOVERNO! O ESCAMBAL! Sessão nostalgia do colégio: as férias começavam sempre na primeira semana de dezembro. Aos poucos os primos de São Paulo, de São Carlos amontoavam-se aos de Jales. Hoje sou um que chega, de volta pra casa dos pais, logo Brasília entrou pra família também. Fim de ano a gente se reúne e fica confabulando. Estou experimentando sensações novas, como deixar a barba crescer; o que é foda, porque demora mais de mês pra parecer que tenho alguma coisa peluda contornando o rosto, sem contar que incomoda pacas. Uma coisa boa, pra relaxar, que descobri em Brasília é a meditação, melhor que fumar maconha. Aliás, maconha é uma bosta. Não tenho barato do tipo ver o cosmo, elefante rosa, ou qualquer coisa psicodélica surreal – não mesmo. Com a meditação, sim! Você relaxa em 20 minutos, alivia toda a tensão e tem a vantagem de não ficar idiota no resto do dia (assim que me senti quando experimentei maconha). Sem contar que não contribui com o enriquecimento de filhos-da-puta de traficantes e as conseqüências de suas ações na sociedade. Só pra falar de filmes, assisti a alguns filmes do 35º Festival do Cinema Brasileiro de Brasília. Muita coisa boa – viu seu Renato. Show de filmes e show do público que lotou todas as sessões. Destaco os longas “Amarelo Manga” de Claudio de Assis e “Dois Perdidos Numa Noite Suja” de José Joffily; dos atores gostei do Chico Diaz, Matheus Nachtergaele (ambos em Amarelo Manga), gostei também do Roberto Bomtempo (Dois perdidos ...). Alguns vencedores do festival, (R$ premiação) – com merecimento Melhor Filme – AMARELO MANGA (50.000,00) Melhor Diretor – José Joffily, pelo filme DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA (10.000,00) Melhor ator – Chico Diaz, no AMARELO MANGA (5.000,00) Melhor atriz – Débora Falabella, no DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA (5.000,00). Vi também as exposições do Picasso (simplesmente belíssima) e Lúcio Costa 100 Anos (foi umas das mais espetaculares e emocionantes exposições, que lição este arquiteto nos deixou – ainda bem!). Em breve ocorre exposição do grande artista plástico – o maior de Brasília – Athos Bulcão, estou escrevendo um ensaio sobre algumas de suas obras em Brasília integradas à arquitetura, esse autodidata da arte sabe como ver e sentir esse mundo e, melhor, como transmitir com sutileza, emoção e beleza. É isso. Escrevi só por escrever. Sem querer saber se estou sendo útil, se está correto a gramática, ou se você que estar a ler vai se sentir melhor – ou não. Não hoje. * foreman é um conhecido ae! posted by Anônimo | 12:53 AM terça-feira, 26 de novembro de 2002 COMIX Comentários sobre as últimas HQs que li: A PAIXÃO DE ARLEQUIM, de Neil Gaiman e John Bolton: a arte está exceletente, bem diferente, mas a história me decepcionou um pouco. Cadê a paixão do título? A melhor coisa é ficar por dentro da história de figuras míticas como Arlequim, Pierrot, Colombina, citados em canções do Los Hermanos. Editora Conrad. SIN CITY - A GRANDE MATANÇA, de Frank Miller : uma das melhores histórias em quadrinhos já feitas. Frank Miller é fodão e nessa obra o uso do preto e branco sem meio termo faz a diferença. Mas a história é cheia de ritmo, vitalidade. Parece um bom filme de gangster, só que mais sangrento, mais fudido. Grande Frank. Pandora Books. CAVALEIRO DAS TREVAS 2, de Frank Miller: Essa mini-série foi bastante polêmica. Muita gente detestou. Mas quando eu fui reler as duas primeiras até gostei e vi que Miller foi incompreendido. A sua obra é bem política e ousada. Cutuca os meios de comunicação, o governo e mostra um mundo mais caótico que o da primeira DK. Editora Abril. SANDMAN # 20, de Neil Gaiman. O nome da história dessa edição é "Fachada" e fala sobre uma estranha mulher que sofre de depressão por razões singulares. Participação especial da morte. Editora Brainstore. DYLAN DOG # 3. Essa edição não está tão boa quanto a segunda, mas é bem legal. Só achei meio confusa com essa história de reencarnação misturada com clonagem. Editora Mythos. PREACHER - CIDADE NUA, de Garth Ennis. Reunião das 3 primeiras edições nacionais de Preacher. Foi o meu primeiro contato com alguma obra do Ennis. Bem malucão e violento. Editora Tudo em Quadrinhos. Aguardando chegar nas bancas: SANDMAN #19 SANDMAN: MORPHEUS DYLAN DOG # 4 MONSTRO DO PÂNTANO - Volume 1 OS MAIORES CLÁSSICOS DO HOMEM ARANHA ARQUEIRO VERDE - O ESPÍRITO DA FLECHA, de Kevin Smith. Mini-série em 5 edições a sair pela Panini posted by Ailton Monteiro | 10:37 AM segunda-feira, 18 de novembro de 2002 Meu Deus, como isso é velho! (O PALCO) NA ESTRADA SEQÜÊNCIA 01 (exterior / estrada / dia) Vemos as faixas da estrada e a seguir ouvimos os passos de alguém; os pés surgem em sapatos, botas. SEQÜÊNCIA 02 (interior / palco) Outros sapatos no palco param. Um ator na ribalta. Ele olha para os pés e ele olha para frente. Ele está vestido com uma camisa branca com muitos floreios e rendas e suas calças são pretas. Ele anda um pouco para frente e subitamente tira uma adaga do bolso de trás ameaçando quem está a sua frente, no caso o público que não vemos. SEQÜÊNCIA 03 (exterior / estrada / dia) Uma ponta de faca ameaça o queixo de uma mulher que está com uma mordaça na boca. A mulher está com seus braços amarrados em suas costas na beira da estrada. Um homem a ameaça, o mesmo que interpreta o ator no palco. Ele se veste diferentemente. HOMEM: – [grita] Não! Nada! Nada! [se acalma] Não há nada aqui... Você e eu... SEQÜÊNCIA 04 (interior / palco) O rosto do ator. ATOR: – Aqui. Ele se ergue. Encara o público que está quieto e apreensivo. ATOR: – Tirem suas máscaras, por favor! Rasgue–as. Destrua–as. Como eu faço aqui, agora! O ator faz um corte em seu rosto com a adaga. Som de alguns na platéia se chocando. ATOR: – Eu vejo suas faces, de cada um de vocês e nada me agrada mais do que sentir, perceber que vocês não passam de vermes. Eu os domino durante esse momento. Não é perturbador? O ator parece encarar alguém da platéia. ATOR: – Não, você não me domina, eu não existo somente para você. Você não me cria e por isso não pode me dominar. Eu sim, os crio. [pausa] Minhas crias... Tão frágeis, tão carentes... [pausa] Não mais! Não mais as suas inquietudes, não mais suas aspirações, seus traumas, seus desejos. Não vou ser mais a sua muleta, sua muleta para pensar, para refletir, para se divertir, sua muleta para se identificar. Não sou seu espelho, não sou espelho de ninguém! Chega de suas súplicas, chega de seus aplausos. Falsos! Idiotas! A quem enganam? A si próprios? Eu quero sua atenção, eu quero sua obediência, eu quero é o seu dinheiro! O ator aponta para pessoas da platéia que não vemos. ATOR: – Sim, senhora. Sim, senhor. É, meu rapaz. É, minha jovem. O dinheiro. E sua adoração. Ah, sim como eu quero. [ri] Som de pequeno choro. ATOR: – Não. Por favor, eu não... quero dizer, eu... O ator de súbito se agita, roda pelo palco a esmo e sai pela cortina ao fundo. SEQÜÊNCIA 05 (exterior / estrada / dia) Uma lágrima cai do rosto da mulher e é aparada pelo dedo do homem. Ele acaricia o rosto dela. HOMEM: – O que você acha que eu posso fazer? Não tema, sua pele é tão... não vale a pena. Se eu disser que te desejo você vira as costas, não é? Se te odeio nada adianta. E mesmo assim, suja, amarrada, dominada, você é que comanda tudo, não é? Nada que eu faça muda isso. Há muito tempo eu acho que a gente devia fazer isso. Tirar as máscaras. Colocar cada coisa no seu lugar, como num palco, com as luzes se acendendo e os aplausos vindo... As cordas estão machucando? Mulher acena que sim. HOMEM: – Oh, minha querida, eu... eu te soltarei daqui a pouco. Não se preocupe. Uma rajada de vento faz com que ele veja o local onde está: uma estrada deserta, árida. SEQÜÊNCIA 06 (interior / camarim) O ator está no camarim iluminado apenas com as luzes em volta do enorme espelho. Está sentado e se maquia. ATOR: – Não é esse rosto que faz tudo? Não é essa pele castigada pela maquiagem, dia após dia, espetáculo após espetáculo, esperando sempre aceitação, que faz tudo? [pausa] E essa voz que se faz ouvir ao longe de onde sai o lhe foi dito, o que foi escrito sem saber o que se passa aqui dentro [bate no peito], mas ó dádiva, depois de pronunciadas são partes essenciais de nossa vida como se já habitassem essa morada muito tempo atrás. Ele lacrimeja um pouco e passa um pano no rosto. ATOR: – Se não sou eu o caminho, se não sou eu o instrumento, quem poderia ser? Quem entre os que vivem e os que morreram? Esse corpo eu trabalho, essa visão eu empresto, meu choro, meu riso. Os pés que saltam e caminham horas e horas. Minhas vestes. E esse rosto... Eu te adoro. Ele toca sua face pelo espelho e desliza por ela. ATOR: – Eu faço por ti. Eu preciso de ti. Nada mais resta. Nada mais é necessário. Não é o carinho da mãe, o calor da amante, o abraço do amigo... É você. Como nunca deixou de ser... você. Ele se aproxima do espelho e se beija. SEQÜÊNCIA 07 (exterior / estrda / dia) O homem beija a face da mulher. SEQÜÊNCIA 08 (interior / camarim) O beijo no espelho é longo e prolongado, vindo a provocar lágrimas e choro. Ele se recompõe. Arruma a maquiagem. Guarda com cuidado todos os apetrechos. Pega numa bolsa um maço de cigarros e tira um. Acende e lentamente aspira e solta a fumaça no espelho. Ele pára e olha o cigarro se queimar, ele estende a mão e apaga o cigarro em sua palma. Ele segura a dor e ajeita a roupa. TELA PRETA SEQÜÊNCIA 09 (interior / palco) Uma luz se acende e o ator está no palco já maquiado. Ele se curva em agradecimento à platéia que não emite som algum. ATOR: – Já podemos continuar com o espetáculo. Ele respira fundo. ATOR: – Serão os deuses pérfidos a ameaçarem minha própria sorte? O destino que já fora traçado vem a sofrer interferências de vós ó imortais. Danem–se as divindades. Eu invoco seus poderes aqui em minha morada! A luz se apaga de repente e o público se espanta. Um som de pancada. Corte rápido para a... SEQÜÊNCIA 10 (exterior / estrada / dia) A mulher chuta por entre as pernas do homem, que grita, cai ao chão e se contorce. Ela se levanta com dificuldade e uma luz incide sobre seus olhos. Corte rápido para a... SEQÜÊNCIA 11 (interior / palco) Uma vela acesa. Logo o rosto do ator aparece por detrás da vela. Ela é posta na beirada do palco, iluminando uma área pequena na qual o ator fica de pé. ATOR: – Um pequeno incidente. Nada de grave. Nada de alarmante. Apenas a luz. Sim, a luz. Um som de carro surgindo e freiando. O ator se espanta e olha para o lado e atrás. Corte rápido para a... SEQÜÊNCIA 12 (exterior / estrada / dia) Um pneu freia no asfalto. Um carro pára e dele surge outro homem, um jovem. A mulher corre em sua direção. Ela emite sons, já que a boca continua amordaçada. O jovem desce do carro e vem acudi–la. JOVEM: – O que houve? Calma, calma. HOMEM: – [off] Não faça nada seu vermezinho! SEQÜÊNCIA 13 (interior / palco) As luzes são acesas e outro ator (o mesmo jovem da estrada) entra em cena. JOVEM: – Mais uma vez venho a te encontrar, caro colega. O ator se afasta dele. ATOR: – Como ousa? Suas entradas são inoportunas como a vez que você foi aparecer em hora inapropriada para minhas necessidades. JOVEM: – Suas necessidades? Aquela jovem não diria isso. Ela sofreu, não? Naquele calor. ATOR: – Não. [pausa] Não fazia, calor. JOVEM: – Fazia. E aquela jovem lá amarrada, deixada ao desespero. Os pulsos em carne viva e a língua seca querendo água. Sim, fazia calor. Como hoje faz frio, como amanhã estaremos dizendo as mesmas falas, sim fazia calor! ATOR: – Sim, agora me lembro... SEQÜÊNCIA 14 (exterior / estrada / dia) O homem empunha sua faca e desafia o jovem. Ele tira seu canivete. Os dois se estudam. SEQÜÊNCIA 15 (interior / palco) Os dois atores se desafiam, os dois com adagas. SEQÜÊNCIA 16 (interior – exterior / palco – estrada) Com montagem paralela o ator enfrenta o jovem da estrada e o homem luta com o jovem ator, como se estivessem num mesmo espaço físico. O golpe mortal é desferido. Na estrada o homem é atingido. No palco é o jovem ator a sofrer o golpe. Aplausos. SEQÜÊNCIA 17 (exterior / estrada / dia) O homem está no chão. Agoniza. Em sua face está um corte idêntico ao feito pelo ator no palco. HOMEM: – Maldito. Não sabe o que fez. O jovem se aproxima. HOMEM: – Eu não quero ser lembrado por isso. Só [geme de dor] quero ser lembrado como o grande ator que fui. [respira com dificuldade] Você não sabe disso, não é vermezinho? [tosse sangue] Fui um grande ator, grande. [morre] Jovem o encara e enxuga a face com a camisa. Vai até a mulher e a solta. Antes de qualquer coisa a mulher sai correndo. O jovem expressa querer falar algo mas desiste. SEQÜÊNCIA 18 (interior / palco) O jovem está morto no palco, só que agora uma máscara está em seu rosto. O ator se volta para o público e encontra tudo vazio. Ele desce para a platéia e vê uma caveira numa cadeira vazia. Ele pega a caveira e a encara. ATOR: – Foi você o bobo da corte? Ou você é aquele que a pouco me apladiu, que fez minha existência mais valiosa. Que agora eu entendo que era minha razão, meu sentido. Parece que a cada noite as pessoas se despedem e fico eu. Toda noite me despeço de quem não conheço e mesmo assim vivo por isso. E pareciam amigas, pareciam minhas irmãs, meus amores, minha mãe... meu pai. Ele passa pelas cadeiras vazias com a caveira em sua mão. ATOR: – A cada dia eu me perco ao final. E a cada abrir de cortinas eu passo a procurar durante todo o tempo a minha identidade. A minha vítima. O meu mestre. Ele sobe novamente ao palco. ATOR: – Se tudo isso é uma representação ou se minha imaginação fugiu ao controle apenas os outros saberão. Eu não sei nada. Eu me entrego. O ator ergue os braços e se curva como se agradecendo. ATOR: – Eu faço de vocês meus senhores. Eu faço de mim escravo. E, porém, sigo... Ele se vira e caminha, saindo pela cortina. As luzes se apagam. SEQÜÊNCIA 19 (exterior / estrada / dia) O jovem entra no carro e parte. Logo a diante ele vê a mulher parada na beira da estrada, braços juntos ao corpo, estática. Ele passa e olha pelo vidro do carro e depois pelo retrovisor. Segue. A mulher está com o olhar perdido ao longe. Momentos se passam. Vento no cabelo. Ela fecha os olhos. FIM posted by RENATO DOHO | 8:20 PM quarta-feira, 6 de novembro de 2002 VERMELHO Os dois estavam de frente um para o outro. Aquele dia não era como qualquer outro. Eles iriam ter a sua primeira relação sexual juntos. Um vinho caía bem, para diminuir a tensão e torná-los ao mesmo tempo mais excitados e relaxados. O local estava agradável. Bebiam o vinho, sabiam que aquele era o dia. O namoro estava indo bem, mas sexo era fundamental. Outros assuntos apareciam na conversa, mas eles sabiam que nenhum desses asssuntos realmente importava. Ele tenta quebrar o gelo: - Como é? Vamos mesmo hoje? - Você está preparado para qualquer coisa hoje à noite? - ela perguntou. - Sim - respondeu, achando a pergunta um tanto quanto estranha, e sentindo um frio na barriga. - Então vamos. Nesse instante de nervosismo e excitação, ele derruba seu copo de vinho. O vermelho tinge a toalha da mesa. Rapidamente, pega o copo. E tem uma estranha sensação. Já tinha visto em algum filme que vinho derramado não era sinal de boa sorte. Mas tenta esquecer a superstição e volta a encher o copo. Já não aguentando mais a expectativa, eles pedem a conta. Ao sair do bar, sentem aquela sensação agradável de leveza provocada pelo álcool. Aquilo é bom. E a brisa da noite e o som do mar tornam a sensação ainda mais gostosa. Pegam o primeiro táxi que aparece e partem para o motel. Entram na suíte. Ele liga o rádio numa dessas FMs pop. E começam a se acariciar, a se beijar. Ele tira a parte de cima da roupa dela. Ela faz o mesmo com ele. Ele elogia os belos seios dela. Ela fala que outros já disseram o mesmo. Ele continua nas carícias. Ela responde com sons que o excitam. Até que ela pára e fala: - Eu tenho uma coisa pra te dizer. - O que? - pergunta ele ainda beijando o seio dela. - Eu sou virgem. - O que?!? - É verdade. Eu já fui pra motel diversas vezes com outras pessoas, mas o medo não deixou eu me livrar disso. Você me ajuda? Ele fica atordoado. Isso nunca acontecera com ele antes. De repente, todos os detalhes da relação que eles tiveram antes começa a fazer sentido. A essa altura a excitação já estava prejudicada. Apesar do baque da surpresa em tal momento, ele tenta. Em vão. Ela chora. Começa a achar que jamais vai conseguir perder a virgindade. Ele a acaria no púbis. E usa seus dedos. Até que gotas de sangue vermelho molham a cama. Ela chora. Ele acha lindo a visão de seu rosto sentindo dor. Pensa no limite entre a dor e o prazer. No rádio, toca uma canção: "Nunca pensei um dia chegar E te ouvir dizer Não é por mal Mas vou te fazer chorar Hoje vou te fazer chorar." E ele, com a sensação de dever semi-cumprido, começa a pensar nas coincidências daquela noite. posted by Ailton Monteiro | 3:11 PM sexta-feira, 4 de outubro de 2002 Reprises Curioso que esses dias de madrugada enquanto estou conectado para depois tomar banho e preparar minha "cama" (um saco de dormir no chão, só pra fingir que estou deitado em algo suave hehe) na Globo passam os Intercines de sempre, mas ontem e hoje foram exibidos dois filmes que há tempos não revia: Rapaz Solitário e O Primeiro Ano Do Resto De Nossas Vidas. O primeiro é aquele com o Steve Martin, pra mim clássico, com muitas situações que já passei como sentar sozinho para comer num restaurante. As situações são ótimas na adaptação que Neil Simon fez baseado no livro de Bruce Jay Friedman. O outro é filme de turma década de 80, não vi muito mas revendo duas cenas ajudaram a lembrar porque gosto do filme e do Emilio Estevez. A cena é de Andrew McCarthy se revelando para sua amiga, ela que achava que ele até podia ser gay pois não ficava com ninguém. A do Emilio é a estória dele com a Andie MacDowell (professora? esqueci a relação entre eles), só sei que no final ele está indo embora do chalé dela e do marido e ela fala que sempre vai pensar em como seria, mas não pode por causa de sua situação, então Emilio, de surpresa, dá um longo beijo nela enquanto o marido vai buscar uma máquina fotográfica para tirar uma foto dos dois. A cara da Andie depois do beijo é inesquecível, aquele olhar de estar arrebatada, que teve um gosto do que poderia ser, ao mesmo tempo tendo que disfarçar por estar do lado do marido e o carro saindo enquanto ela olha a foto, como eu me identifiquei com o Emilio nesta hora, na maior felicidade dentro do carro! Uma situação que permanecerá na memória dos dois, secretamente para ela, e talvez bem mais forte por não ter sido uma coisa realizada, mas sim algo apenas deixado para a imaginação. Dois bons filmes que trazem lembranças. posted by RENATO DOHO | 4:06 AM quinta-feira, 3 de outubro de 2002 Livros Mais uns livrinhos pra coleção: - Cinemais N.18, na verdade um periódico que tem textos de cinema editadas em formato de livro. Entre os vários textos uma entrevista longa com Carlos Reichenbach e dois sobre Júlio Bressane. - O Cinema Americano Dos Anos Trinta, de Olivier-René Veillon. Tinha lido e gostado bastante do livro do mesmo autor sobre os anos 50. São pequenas introduções nas obras de cineastas representativos da época (ótimas análises) e a filmografia completa (melhor, com os títulos nacionais também). Neste são 18 cineastas abordados, entre os quais Chaplin, Capra, Lubitsch, Michael Curtiz, William Wellman e William Wyler. O legal também é dos que não conheço e passo a me interessar (como aconteceu no outro livro que até xeroquei de alguns cineastas). - O Desespero Humano, de Sören Kierkegaard. Da coleção Obra Prima De Cada Autor, pocket books com preços acessíveis da Martin Claret. Kierkegaard até agora só ouvi referências em outros lugares como no livro A Negação Da Morte ou nos filmes do Woody Allen (e alguns textos do Luis Fernando Veríssimo). posted by RENATO DOHO | 2:45 AM domingo, 15 de setembro de 2002 Tão simples como possa parecer ele acreditava no Amor. Quanto ao resto das coisas idiotas deste mundo idiota tinha suas restrições. As pessoas mentem tanto, traem tantas vezes e decepcionam a todos os momentos, dizia, as vezes acho difícil confiar em alguém. Mas isto não o fazia desacreditar no Amor, apenas fortalecia sua convicção da necessidade que tinha de amar, por que para ele fora isto nada restava senão idiotices. Para cada traição, mentira e decepção que sofria costumava inventar teorias. Houve a “teoria do zíper miocárdico” que dizia que cada amor não correspondido cortava o coração e que com o tempo aparecia no buraco um zíper que juntava os pedaços separados, dizia ainda que era muito mais fácil abrir um zíper do que fazer um novo corte no coração. Criou também a “teoria das correntes dispersas do destino” que dizia que as pessoas são pedaços de papel que voam ao sabor dos ventos e que só permanecem juntas em quanto o vento assim o permite. Para ele não haveria nenhum pedaço de papel igual a outro e o vento, quando percebia esta diferença, separava os dois pedaços que estivessem juntos, por isto o grande lance desta teoria era que quanto mais parecidos fossem os pedaços de papel mais tempo se conseguiria enganar o vento. Mas eram apenas teorias de um romântico ou talvez uma forma de auto-consolação. Embora não fosse do tipo que desanima fácil, com o tempo pude perceber em seu rosto uma certa tristeza, um ar melancólico. Alguns arriscaram o palpite de que ele precisava de uma garota, mas aqueles que o conheciam tão bem quanto eu o conheci sabiam que haviam mulheres em sua vida, mas não havia entre elas a mulher de sua vida. Era triste mas simples sutilezas gramaticais envolviam os complexos sentimentos humanos do meu amigo. Restam algumas coisas importantes a serem ditas sobre ele. Nunca vi alguém se apaixonar tão rápido. Para ele todas as mulheres tinham o potencial para serem a mais especial que ele já conhecera, tinha até uma teoria que explicava isto. Para todas elas se desmanchava em versos e rosas. Nunca vi textos tão profundos serem escritos para mulheres tão superficiais. Mas ele era assim, tinha um péssimo faro para bons relacionamentos e um bom gosto musical. Quando escurecia ouvia Neil Young e James Taylor e nunca assistia os Jornais.Tinha características pouco comuns hoje em dia. As vezes falava sobre coisas estranhas, desconexas ou mesmo infantis, nunca lhe disse mas sempre achei que ele ainda acreditava na Terra-do-Nunca. Era capaz de trocar o futebol com os amigos pela leitura de um bom livro. Gostava muito de escrever e chegou a escrever alguns bons textos, inclusive algumas dissertações sobre o amor. Um dia sumiu. Algumas pessoas dizem que se deu conta de que não havia amor na Terra, outras dizem que se cansou de procurar algo de bom no Mundo e simplesmente desapareceu. Não acredito nisto. Gosto de pensar que num dia comum ele foi ao cinema, sozinho como costumava fazer, e sentou-se sem querer ao lado de uma pessoa incomum, que por acaso era a mulher da sua vida. Acho ainda que pela primeira vez em sua vida assistiu a um filme que teve um final feliz. posted by Anônimo | 8:52 AM quinta-feira, 12 de setembro de 2002 LEITURAS DIVERSAS Recentemente andei lendo umas coisas e vou comentar rapidamente. Tem livros, quadrinhos e até roteiro de cinema. - CANTO DOS MALDITOS, de Austregésilo Carrano: livro que serviu de base para o filme BICHO DE SETE CABEÇAS. Ganhei numa promoção e tive bastante sorte, já que o livro está proibido nas livrarias. O livro foi cassado pelos familiares de pessoas que tiveram o seu nome "denegrido" pelo escritor. Carrano fala o nome do tal Dr. Alô Guimarães o tempo todo a fim de extravazar um pouco a sua raiva por ter sido internado, drogado e eletrocutado num hospício fedorento. O livro não é tão fluido quanto o filme, mas é mais detalhista e esclarecedor. Vale procurar no mercado negro. - O ANTICRISTO, de Friedrich Nietzsche: outro livro raivoso. O alvo dessa vez é o cristianismo e o filósofo polêmico e pouco convencional não perdoa ninguém, nem mesmo o apóstolo Paulo. Um livro muito bom, apesar de eu achar bem radical. Mas a linha de pensamento e o entusiasmo raivoso de Nietzsche é o que importam nesse caso. Na verdade, ainda faltam algumas páginas pra eu terminar. - DYLAN DOG nº 1 - Editora Mythos (HQ): Pena a qualidade do papel não estar à altura das 6 edições publicadas pela Conrad. Eu preferiria continuar pagando 1 real a mais e ter um papel de qualidade do que pagar R$ 4,90 por esse papel ruim. Vale pelas histórias do personagem italiano que inspirou o ótimo filme DELLAMORTE DELLAMORE. Mistério, terror, humor e personagens que conquistam. Nessa edição, é desvendado o mistério de Morgana e detalhes sobre o pai de Dylan. - MARVEL APRESENTA: WOLVERINE E HULK (HQ): Os desenhos de Sam Keith estão sensacionais nessa revista. E parece que ele aprendeu muito do tempo que ele trabalhava com Neil Gaiman. O tom de fábula surrealista está presente em toda a revista. Tudo parece um sonho. A garotinha que deve estar morta, Wolverine caindo de um teco-teco e encontrando Hulk, o ponto de vista da garotinha. Algumas vezes, Keith imita desenhos de criança. Ficou bem legal. - AURÉLIA SCHWARZENÊGA, de Carlos Reichenbach e Fernando Bonassi (roteiro): roteiro disponibilizado pelo próprio Reichenbach em sua coluna semanal no Cineclick. Eu imprimi na empresa em uma impressora laser frente e verso e mandei encadernar. Ficou legal pra se ler. Leitura ótima e que ajuda a gente a ficar ansioso pra ver o resultado final nas telas. Reichenbach toda semana está trazendo notícias das filmagens no Cineclick. É a oportunidade de acompanhar a produção de um filme de um dos melhores diretores do nosso cinema. E é de graça. posted by Ailton Monteiro | 3:00 PM quarta-feira, 4 de setembro de 2002 Ainda sobre o Cidade de Deus. Acho que por mais interessante que seja atrair a atenção do estrangeiro, isso acontece através de uma anomalia. Explico, chama a atenção não por apresentar uma linguagem própria, identificada com a realidade latino-americana, e sim através da imitação do modelo imperialista do cinemão americano. Aí eu acho uma merda, fico imaginando os críticos americanos lá na deles: "olha só como eles aprenderam direitinho..." Cinematografia latino-americana por cinematografia latino-americana, prefiro a Argentina, que pelo menos é menos americanóide. E quanto à narração do menino, não acho que seja condizente com a realidade que o filme quer retratar. Se vocês prestarem atenção, o garoto parece que está sempre narrando em ritmo de brincadeira, mais ou menos assim: "aí, o Pequeno jurou que ia matar o Cenoura, mas o Cenoura era legal pra caramba e esperto também..." Porra, o tema é sério ou não é, caceta?! Esse tipo de alívio cômico (que acontece TODA A HORA) me ficou cheirando a concessão para platéia que não consegue ficar 10 minutos agüentando uma narrativa densa. posted by Anônimo | 12:49 AM terça-feira, 3 de setembro de 2002 Um comentário rápido sobre o filme BEIJANDO JESSICA STEIN (dessa vez, exclusivo para o Bando de Cá). No domingo à noite fui conferir um filme que conta a história de Jessica (Jessica Westfeldt), uma garota que não consegue ficar com ninguém durante muito tempo. Ela é exigente, sempre vê os defeitos das pessoas. Um dia decide responder a uma anúncio de alguém que atraiu-lhe a atenção. Ficou encucada, já que a pessoa era outra mulher, mas resolveu marcar o encontro. A cena que mostra o primeiro encontro das duas ficou muito legal. Inclusive, a outra, a atriz Heather Juergensen é a cara da Marina Person. (Só que a Marina é mais bonita.) Ao mesmo tempo, um rapaz que trabalha com Jessica (e ex-namorado da moça) anda bastante interessado na curiosa. Mas o mais bacana de tudo foi o final, não tão gay quanto imaginava-se que fosse. Quando as luzes se acenderam deu pra ver a cara de desaprovação do público gay da sala. Hehehehe. Filme indicado a turma que curte ver mulheres se beijando. Estou pra conhecer um cara que não curta. posted by Ailton Monteiro | 5:37 PM Já que o Fabiano postou um comentário pendendo para o negativo de CIDADE DE DEUS, estou enviando uma defesa do filme. Bom mostrar dois lados, né? Fernando Meireles foi o diretor de um dos filmes brasileiros mais odiosos que eu já tive o desprazer de ver - DOMÉSTICAS, O FILME. Esse filme deu um mal estar desgraçado de ver, já que o cinema há tempos deixou de ser diversão popular. Ver um monte de dondoca e mauricinho rindo de empregadas, sempre mostradas como burras e feias, foi de doer. Por isso, fiquei achando que eu não ia gostar desse CIDADE DE DEUS, do mesmo diretor. Mas que nada. CIDADE DE DEUS é um filme-acontecimento. Uma maravilha narrativa. O modo como ele mostra o comércio ilegal de drogas nas favelas (as bocas) chega a ser didático. Além de tudo, os personagens impressionam, alguns ganham a nossa simpatia (Bené, Mané Galinha e Buscapé) e outros despertam a ira (Zé Pequeno). Impossível não lembrar de OS BONS COMPANHEIROS e CASINO, ambos de Martin Scorsese. Assim como esses filmes, a narração em off do personagem Buscapé começa numa década e pára em outra, apresenta vários personagens e tem doses fortes de violência. A diferença é que não estamos em Nova York ou Las Vegas. Estamos numa favela carioca. Bem mais perto da gente. Se vemos o filme dentro da sua proposta narrativa e não como uma tentativa de mudar o mundo, gostamos mais ainda dele. Sequências de violência assustadoras como a de Zé Pequeno atirando no pé de uma criança de 5 anos são de cortar o coração. Não dá pra esquecer de Buscapé sofrendo feito um condenado e ganhando uma mixaria tentando fugir do destino de quem geralmente habita a Cidade de Deus. Não dá pra esquecer da despedida de Bené. Não dá pra esquecer o bando de Zé Pequeno metralhando a casa de Mané Galinha. E nem dá pra esquecer que quem interpreta Mané Galinha é Seu Jorge, cantor que já morou na rua, feito mendigo. O elenco, formado por gente da própria favela, está extraordinário. Mateus Nachtergaele está muito foda como o traficante Cenoura. Já até estou em dúvida se o melhor filme brasileiro do ano é esse ou O INVASOR. Sem falar que o nosso cinema está atraíndo novamente a atenção do mundo. posted by Ailton Monteiro | 4:27 PM Dois mestres, uma coincidência Os mestres são John Ford e Fritz Lang dos quais vi Ao Rufar Dos Tambores e Vive-Se Só Uma Vez. A coincidência é que ambos tem Henry Fonda jovem no papel principal. Se for notar há outra, não sei se Fonda ainda não tinha nome, mas nos créditos dos dois filmes quem recebe destaque é as atrizes, Claudette Colbert e Sylvia Sidney. Colbert é ótima e Ford tira dos dois grandes interpretações. O filme de Ford tem um tom patriótico principalmente no final e uma brutalidade por parte dos índios. O de Lang é uma tragédia americana, lembrando por vias tortas O Homem Errado de Hitchcock, de novo com Fonda, em ambos o personagem consegue a liberdade de uma forma ou de outra. Os ângulos e a ambientação de Lang ainda estão bem impregnados do expressionismo alemão seja na neblina da penitenciária, nas sombras das grades ou na fumaça do assalto. Este mês há um mini-festival Henry Fonda no Telecine Classic. posted by RENATO DOHO | 11:50 AM Venho agora do "Cidade de Deus", o grande acontecimento cinematográfico da temporada. O grande problema é que não podemos discutir este filme apenas sob a ótica da boa direção, da boa montagem, do bom roteiro. É preciso inseri-lo na conjuntura social e política que favorece a criação de tais obras. Enquanto espetáculo técnico, é um grande filme (tirando os abusos video-clipe para agradar um público viciado em maneirimos de montagem), indiscutível a boa direção e o roteiro bem resolvido. Discutível, entretanto, a proposta ideológica. Se é um filme "engajado" (termo criado para amainar a culpa dos abastados), o que exatamente ele denuncia? Ao meu ver, denuncia apenas o que todos já sabem. Aposto mais na hipótese de ser "Cidade de Deus" um filme que procura lucrar com a glamourização da violência. Tomemos como exemplo a reação do público na saída da sessão: na sua maioria, saem entretidos, felizes de terem visto um filme que se usa de uma estética imperialista (a do cinema americano: vide Pulp Fiction, Assassinos por Natureza) para divertir o espectador. Ninguém sai do cinema questionando a questão da violência urbana, da desigualdade social, da concentração de renda. Ouvi gente dizendo: "até que enfim o cinema brasileiro tá melhorando". Aaaaahhhh, quer dizer que só melhora quando imita Matrix, na ridícula sequência de abertura. Cinema engajado não rima com cinema pipoca. O que Fernando Meireles e Kátia Lund conseguiram fazer é um filme que traz a estética da violência ao alcance da classe média que tem grana para pagar R$12,00 o ingresso do cinema. E que, aliás, chega em casa e hipocritamente puxa um fumo discutindo sobre o quão absurda está a violência urbana. Pois vão ver "Rocha que Voa" do Erik Rocha, ou qualquer filme do Eduardo Coutinho, pois "Cidade de Deus" é só Prozac em película. PS.: Este post se encontra originalmente no meu blog pessoal, Contos do Submundo. A intenção não é fazer propaganda do meu blog, mas, primeiro, avisar que este post já existia em outro lugar, e, segundo, saber se vocês preferem que eu não coloque comentários do meu blog aqui. É óbvio que só farei isso quando forem comentários sobre livros, filmes e afins, e nunca coisas pessoais. domingo, 1 de setembro de 2002 Acabei de ler ontem A Mulher Mais Linda Da Cidade do Bukowski (tá tendo uma treta com relação a esse livro nas escolas públicas do país) e continuo a leitura de A Vida Sexual De Catherine M. de Catherine Millet; ambos fazem o mesmo com coisas diferentes - a bebida para Bukowski é tão comum e constante como o sexo para Millet. Ao menos em Bukowski não é a bebida exatamente o centro de atenção de tudo, enquanto todos os detalhes das orgias de Millet se fazem presentes em cada linha do livro. Invertendo um pouco, o conto Curra, Curra do livro do Bukowski é exemplar seja o fato descrito real ou fictício. posted by RENATO DOHO | 9:23 PM |
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